O cinema de John Hughes (1950-2009), descontada a enorme popularidade cultivada desde Gatinhas e Gatões (1984) pelo humor e pelo olhar preciso sobre as agruras da adolescência, sempre teve a rebeldia juvenil como leitmotiv. A vida através de seus filmes é vista como fábula do sarcasmo e da revolta dos fracassados.
Assim é o já citado primeiro filme, assim é O Clube dos Cinco, seu segundo e popularíssimo filme e assim é Mulher Nota Mil, uma mistura de ficção científica e perda de inocência. Nesse contexto, Curtindo a vida adoidado (1986) é o fim da adolescência, o último sopro da bagunça dos tempos de segundo grau (ou ensino médio, como queiram), é a chegada à porta da universidade e do fim da mordomia. Seu filme seguinte - Quem vê cara não vê coração, com John Candy - confirma esta tese.
Mas Hughes não se dá por vencido ao ver a juventude se esvaindo (em seus filmes, diga-se) e se sai com um protagonista único. Meio gênio, meio pilantra, Ferris Bueller (Matthew Broderick) é o samurai da preguiça. "Como ir à escola num dia como esse?" questiona ele olhando para a câmera nos primeiros minutos de Curtindo…, diante da janela enquadrando um dia glorioso.
Ferris se junta ao melhor amigo, Cameron (Alan Ruck), e à namorada, Sloane (Mia Sara). E o que faz o trio? Mata aula, toma emprestada a Ferrari do pai de Cameron - carro que ele ama mais do que ao filho - vai ao museu, come num restaurante francês, visita o topo do prédio mais alto de Chicago. Um adolescente em 2012 coçaria a cabeça e se perguntaria se isso é mesmo curtir a vida. Bem, era. Em 1986.
Bueller é o símbolo juvenil da recusa à caretice, santo padroeiro do famigerado carpe diem, dono de um denotado savoir faire e alguma pilantragem.
Curtindo a vida adoidado
(EUA, 1986. 103 minutos)
Direção e roteiro: John Hughes
Com Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara.

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